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25/5/2012 13:11:23
Comissão da Verdade: um livro pioneiro relata a tortura
Na época, ainda sob governo militar, o livro teve um impacto extraordinário: era a primeira vez que um ex-preso político da ditadura narrava com clareza e em detalhes as constantes sevícias que padeceu.

Vinte e três anos depois, "Tirando o capuz" voltou às livrarias, pela Garamond, com o status de um clássico dos anos de chumbo. O livro se destacou naturalmente entre os muitos depoimentos que foram publicados na década de 80, resistiu à passagem do tempo e pode ser lido hoje, especialmente pelos jovens, como um relato que reconstitui uma fase dramática da história brasileira recente, marcada pelo confronto entre a ditadura militar e as organizações de esquerda armada, em boa parte constituídas por estudantes que se engajaram na resistência.

Lançado originalmente pela editora Codecri, do Pasquim, o livro foi recebido com louvores pela crítica (leia abaixo alguns comentários publicados na imprensa) e integrou as listas de mais vendidos das principais publicações nacionais, entre elas Veja e O Globo. A quarta edição, esgotada, foi publicada em 82.

Em 2004 a Garamond repõs o livro nas livrarias, numa quinta edição, com texto revisto e ampliado pelo autor e capa do artista gráfico Luís Trimano. Este retorno não se deve unicamente à sua integridade como documento de valor histórico dos tempos de terror, revividos agora com os debates sobre a Comissão da Verdade. Duas novas histórias, que brotaram das raízes espalhadas pelo livro, foram incorporadas a esta edição, no capítulo intitulado “Sem Capuz”.

O livro reconstitui a aventura existencial e política de uma geração, do golpe de 64 à opção pela luta armada, seguida pela descida ao inferno da tortura nos porões do DOI-CODI e o prolongado período de cárcere. Seu autor, o carioca Álvaro Caldas, nasceu em Goiânia. É jornalista, trabalhou nas principais redações de jornais do Rio e de São Paulo: Globo, Jornal do Brasil, Jornal dos Sports, O Estado de S. Paulo, Diário do Comércio e Indústria (DCI), Folha de S. Paulo, Última Hora, TV Globo e Tribuna da Imprensa. Também colaborou com jornais da imprensa alternativa nas décadas de 1970/80, entre eles Opinião, Movimento, Pasquim e Em Tempo. Publicou os livros "Balé da Utopia", estréia na ficção (Editora Objetiva, 1993/ Garamond, 2007), "Cabeça de Peixe", contos (Garamond, 2002), e organizador de "Deu no Jornal", o jornalismo impresso na era da internet, (Org. Loyola/PUC, 2002). É professor da Faculdade de Comunicação da PUC-RJ.

A seguir, um resumo do que foi publicado sobre "Tirando o capuz" em forma de resenha e opinião de colunistas e cronistas. Entre 81 e 82 foram feitas quatro edições do livro, que permaneceu meses nas listas dos mais vendidos.

“O autor faz uma análise lúcida e inteligente sobre os caminhos e descaminhos da esquerda brasileira, em meio ao relato de sua terrivel experiência na prisão.”

Fernando Sabino, O Globo, Jornal da Família, 12/7/81

“Faz bem a leitura de Tirando o Capuz, livro nem só de memórias muito menos de análise formal, uma narrativa ao mesmo tempo pessoal e de toda uma coletividade, com o uso do melhor dos gêneros jornalísticos – o que excede o tes-temunho, para ser o do fato vivido. Faz bem assim esse livro, antes de fazê-lo ao leitor, ao jornalismo, que se vê revitalizado como instrumento capaz de restaurar, com fidelidade e estatura, os traços episódicos e humanos de um período.(...) Faz bem que AC não tire só um capuz, mas dois. Aliás, três. (...) Um livro de verdade, de verdades, que não usa a falsa humildade nem o falso heroísmo.”

Janio de Freitas, Folha de S. Paulo, 17/6/81

“O texto de Kafka em Colônia Penal se assemelha à experiência sofrida por Álvaro Caldas nos porões da repressão e retratada em Tirando o Capuz. O absurdo e a bestialidade do processo são os mesmos. O relato, em ritmo de repor-tagem, é sempre apaixonante, mas nunca apaixonado. Caldas consegue manter uma inusitada distância crítica dos eventos que lhe tomaram dois anos e meio de vida. O clima modorrento e a organização dos presos no cárcere, o suspense susci-tado pelos seqüestros dos embaixadores, o relacionamento às vezes surpreendente com alguns recrutas são retratados de forma estigmatizante, porém cândida.”

Walter Salles Jr., ISTOÉ, 29/7/81

“Álvaro Caldas elaborou um magnífico contraponto: ele combina a reconstituição objetiva dos fatos com a rememoração de suas angústias e estados de espírito, tempera suas análises cautelosas com pormenores sugestivos.(...) A coragem intelectual do escritor repele as simplificações maniqueístas. Não assume ares de herói, ele se assume com um homem igual a nós. É isso que facilita a identificação de cada leitor com o autor-protagonista, conferindo enorme eficácia às páginas de Tirando o Capuz.”

Leandro Konder, escritor, filósofo, Voz da Unidade, 3/7/81

“Caldas recompõe com uma impressionante distância a sua experiência de prisioneiro – e é essa distância, paradoxalmente, uma das fontes de emoção que nos envolve ao lê-lo.( ...) Da leitura de seu livro extrai-se um ensinamento de ca-pital importância para os dias de hoje: a ninguém é dado brincar impunemente com os fatos sociais.”

Franklin de Oliveira, escritor, crítico, Folha de S. Paulo, 19/7/81

“Sem recorrer a adjetivos heróicos, em tom sereno, o relato de Caldas en-sina que o cenário de uma câmara de tortura é o da condição humana em farrapos. Contemplá-lo talvez apresse o enterro de um tempo de horrores.”

Augusto Nunes, Veja, 24/6/81

“Alvaro Caldas transformou todas as vivências de militante em documento histórico, essencial, de agora por diante, para a configuração de uma lição que transcende os limites da didática política - ou policial. (...) Em algumas partes, a leitura nos induz à impressão de estar lendo um livro de Kafka, a associação com o obsurdo é inevitável.”

Gastão de Holanda, O Globo, Livros, 2/8/81

“Caldas consegue criar o clima opressivo e as dolorosas consequências da derrotas sofrida, recorrendo com eficácia às técnicas que desenvolveu como profissional da comunicação. Ele relata, num texto ágil, três prisões, trabalha os fatos com extrema habilidade, revelando-se das presenças mais respeitáveis no atual quadro brasileiro, neste novo ofício de escritor.”

Rodolfo Konder, Leia Livros, agosto 1981

“Militante da esquerda armada, o autor é um dos protagonistas da tragédia politica que se abateu sobre o Brasil e se debruça sobre ela com lucidez e emoção, inteligência e sensibilidade. Está tudo aqui: a tortura e a solidão, o idealismo e a esperança, o grande dilema. Dá a impressão de ter sido escrito de um jato. Não é um romance, mas é como se fosse um. E é sem dúvida um grande livro.”

Flávio Rangel, teatrólogo, na contracapa das primeiras edições do livro

“Livro de História do Brasil, não tenho dúvida em dizê-lo, e História da melhor qualidade, sem parti pris,que no futuro devia ser adotado nas escolas, até porque é um documento pioneiro. História pura, narrada com a maior dignidade, todos os erros reconhecidos, o que não é fácil.”

Marcos de Castro, jornalista, na orelha das primeiras edições do livro

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